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quarta-feira

É assim: todo mundo tem uma meia dúzia de calos.
Na verdade não... não são calos... Porque calos são coisas físicas, ficam lá, protuberantes nos seus pés, basta um sapato errado e, pronto, acabou o seu dia! Calos existem. Dá para ver, sentir, a dor é incontestável.
Então 'calo' não é uma boa analogia.
Mas eu também não queria usar 'fantasmas'; porque é sempre esta palavra que me vem à cabeça quando quero falar sobre este assunto que estou tentando falar agora, que nem foi apresentado ainda.
Mas é que fantasmas... bem... há quem duvide da existência deles...
Então vamos usar a expressão mais aproximada: todo mundo tem uma meia dúzia de inseguranças.
Acontece que essas inseguranças às vezes são como os calos, e às vezes são como os fantasmas...
Sim... é bem assim.
E o que eu quero mesmo falar é sobre quando as inseguranças são fantasmas. E, veja bem, quem pode garantir com certeza que fantasmas existem?
Mas eles assombram.
E uma das vantagens de envelhecer, é que os acontecimentos não são primores de criatividade. Preste atenção - os episódios se repetem. Com mudanças às vezes quase nulas no roteiro. Então se você já passou por eles, você já os conhece. E se você já os conhece, você sabe o que fazer. Pelo menos em tese...
O que muda, eu acho, é a nossa forma de se relacionar com os tais dos acontecimentos repetitivos. E é aqui que eu volto com as inseguranças-fantasma. Porque geralmente a gente as ouve por uma boa parte da vida.  E aí, conforme a fita vai passando novamente pelo mesmo ponto, você percebe que ouvi-las geralmente gera equívocos, enganos, confusões e ruídos de comunicação. E neste momento há a ilusão que elas, as inseguranças-fantasma, irão calar-se finalmente. Porque você as descobriu, as desvendou, as pegou no flagra. Ledo engano... Inseguranças-fantasma existem para assombrar. Assim como clorofila existe para que aconteça a fotossíntese (falei bobagem, pessoal que entende de Biologia?).
As inseguranças-fantasmas são serezinhos horrorosos, sem espécie definida, que permanecem alojados dentro da nossa cabeça. Eles sopram coisas, criam sensações incômodas, distorcem palavras e atos. Querem nos manter miúdos e cativos, encarcerados dentro de nós mesmos.
Mas não os tema, não os odeie. Eles fazem parte de nós.

Apenas não os siga.

Basta.

quinta-feira

Sobre como ser chamada de puta de tornou música para os meus ouvidos.


Eu lembro exatamente da primeira vez que fui chamada de puta sem me sentir ofendida.
Foi por um amigo. Gay. Que ao se referir a mim como uma puta, estava me elogiando. Era uma demonstração de admiração. Ao me chamar - sorrindo, leve, divertido - de puta, ele estava deixando claro para mim as transformações que estavam ocorrendo na minha vida. Naquele dia em que, pela primeira vez, eu fui chamada de puta e eu gostei, tive um rasgo de consciência.

Eu não faço sexo por dinheiro. Nunca fiz. Acredito que nunca irei fazer - minha profissão é outra.
E, no sentido estrito, puta é apenas uma prostituta.
No sentido simbólico (sempre mais significativo), tudo relaciodado à vida sexual de uma mulher pode ser ofensivo.
É a nossa lógica binária, presente em cada coisa que tocamos e criamos.
Neste caso funciona assim: homens exacerbam, mulheres se reprimem.
Minha alminha nervosa nunca conseguiu entender a serventia disto...

Desde a primeira vez que eu fui chamada de puta e eu gostei, venho usado tal palavra como auto-elogio.
Eu sou uma puta.
Muita gente nunca vai entender como posso afirmar isto. 
E eu não preciso tentar explicar para quem nunca vai entender. 

Eu sou uma puta porque as putas vão de encontro ao que está determinado como ideal feminino - e eu acredito na liberdade sem dramas de cada pessoa poder dizer o que é ideal para si mesma.
Eu sou uma puta porque os corpos das mulheres nunca foram considerados sendo delas mesmas - está aí Adão e sua costela que virou Eva, que não me deixa mentir.
Eu sou uma puta porque eu sou uma pessoa sexualizada - como é natural que as pessoas sejam.
Eu sou uma puta porque a minha libido não me constrange.
Eu sou uma puta porque a minha vida só me diz respeito.
Eu sou uma puta porque não sinto culpa.

Eu Sou o que Eu Sou.

E vou defender a desconstrução da ofensa universal ao sexo feminino pelo tempo que me apetecer.