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sábado

Carta a ele.
Sou daquelas cujo derramar-se nunca é discreto. Pois se sinto, choro. E se choro, me incha os olhos.
Nunca pude sentir despercebida, pois mesmo chorando no escuro solitário do canto do meu quarto, no outro dia a cara toda me exibia.
Por um tempo, burra que fui, evitei sentir em profundidade. Pois acreditei numa das crendices doentes deste mundo, que dita que quem se afeta assumidamente, merece o cadafalso social.
Pois agora, quanto mais células minhas se entregam assumidamente ao torpor, mais dona de mim eu me sinto.
Moço, vou lhe contar uma coisa poderosa: uma das vantagens deste mundo é a possibilidade de se perder.
Moço, vou lhe contar outra coisa: eu jamais experimentaria a minha capacidade de não sentir medo de morrer por causa do julgamento do outro, se não viesse você me oferecendo seu chão sem ovos.
Porque você também sabe que eu não vou nem tentar lhe roubar de si.
Que agora, que o torvelinho chegou sem espaço para vislumbre de convivências, eu não tenho porquê sentir vontade de me proteger.
Eu sinto e choro e acordo amanhã com a cara amassada, de tão inteiro que eu senti.
Moço, eu não preciso que você me salve. Nem do meu pavor da solidão.
Com a cara inchada vou escrever poemas e recitar baladas. E se alguém me perguntar pra que, vou dizer que não é nada. Vou dizer que viver é tudo isso.
Um brinde ao movimento que só acontece através das paixões (de gente e de coisa).
Da filha do Vento.
Eparrey!
Claro que eu conhecia a lenda. Mas era uma imagem que não aparecia na minha cabeça. Era um arquétipo que eu não associava. Porque a primeira coisa que vem à cabeça quando se pensa em Iansã, é o vento. O vermelho. A chuva. As tempestades.
Às vezes (e torço para que minha Oyá não seja das mais ciumentas...) eu me pego desejando outros atributos. Fecho os olhos, aperto as duas mãos com força e peço repetidamente: menos ventania, menos ventania, menos ventania.
Menos furacão.
Menos ciclones dançando entre si dentro da minha cabeça.
Mas o búfalo!
Gente. Eu nunca tinha pensado nele.
Búfalos são herbívoros.
E só lutam para se defender.
Muitos leões juntos são necessários para os abater.
São grandes e feios.
Sisudos e silenciosos.
Implacáveis, assustadores, fortes.
Como Ogum não se apaixonaria vendo que de dentro de um búfalo saiu uma mulher?
Aquela mulher.
Preciso me olhar no espelho com mais mistério.
Para identificar direitinho quando eu estiver sendo ela dentro dele, e quando eu estiver sendo ele dentro dela.
Que meu búfalo seja muito bem vindo!

quarta-feira

A maior parte do corpo é o peito.
E não estou me referindo à caixa torácica.
Também não é nada sobre mamas e mamilos.

O peito é a porta.
Que entra
ar
medo
sopro
bolhas
pancadas
festas
tentativas de homicídio
cosquinhas
...
...
...
e tanto mais
e sem fim.

Deixo aberta.

Tudo quer dançar.

segunda-feira

Tinha um jeito muito particular de matar as coisas.
A punhalada, embora fosse sempre cheia de energia, nunca acabava de uma vez o serviço.
Talvez fosse o seu desejo de não estar certa.
Feria, doía, sangrava, traumatizava. Mas não matava.
Era boa em se recuperar, talvez por isso não exitasse em golpear. Se não fosse nada, convalesceria, se recuperaria e exibiria com charme a cicatriz. No máximo, uma boa cicatriz, com uma bela história pra contar.

Por isto
nunca
exitou
em golpear.

Doces ilusões, doces ilusões... e lá chegava a hora de golpear de novo...

Dois compassos (quase monótono).

Mas sabia quando chegava a hora de encerrar um capítulo!
Tinha o talento de perceber quando não havia mais por onde preencher o roteiro.
E aí sim, então, o golpe fatal.

Que nem precisava ser com tanta força, já que a carne estava ali enfraquecida, vulnerável ainda, debilitada.
Mas sabia o exato ponto onde o corte era mortal .

Nenhum enredo deve ser abortado. Pois todo conto é vivo. E toda vida vale o esforço.

Quem não ama os passionais?
Muito se engana quem pensa que são cegos.
Os passionais vêem tudo.
E se jogam
despenhadeiro abaixo
mesmo
sabendo
que
no fim
encontrarão
o solo
seco.

Passionais são apaixonados é pela queda livre.

Quem não os teme...?

Punhaladas, punhaladas, punhaladas, fim da queda, corpo ao chão, golpe fatal.

Até encontrar o próximo despenhadeiro.
Como resistir?
A vista é enebriante.

sexta-feira

De tanto escarafunchar a pele, à procura do que era seu e do que havia sido colado em si, se viu diante de um prato transbordando dos estereótipos que tanto questiona.
Só que, no caso dela (que surpresa!), não eram estereótipos.
Era a pele mesmo.
o súbito frio na barriga acaba de me avisar que acabados os festejos de momo, estará chegada a hora
na delícia que têm sido estes meus dias, eu já tinha até esquecido que vou partir... já estava olhando novamente para as minhas ruas e as minhas gentes, sem olhos de despedida
já estava caminhando novamente sem o pavor (inevitável) do porvir

as mãos ficaram geladas
bem agora
o coração descompassou
deu vontade de chorar

quando momo for embora precisarei ser tomada pela minha ventania
e fazer as malas
e distribuir os abraços apertados
dar adeus aos amores (será preciso...?)
pegar a pouca coragem que me cabe
e seguir

que o futuro me receba com carinho

ora bolas, eu mereço!
Não se adiante.
A perfeição é redonda.
O encaixe se dá quase sem querer, numa consequência inevitável dos passos.
Não se engane.
Bençãos não atemorizam.
Não agoniam.
Não fazem murchar - nem por um segundo.

A fluidez sem barrancos é a prova mais incontestável do sucesso.

segunda-feira

quando há uma confiança meio cega e nada planejada na sua própria capacidade de manejar a vida (ou com a ajuda das deusas, que seja) (e porque, afinal, você não está mais tão preocupadx se o porvir se enquadrará na caixinha do 'bom' ou na caixinha do 'ruim'), a necessidade incessante de planejar o pé para o próximo passo, ou preparar os dedos para a olaria, graciosamente se esvai
é quando você enxerga que há uma grande poltrona confortável bem atrás de si

então você senta
e observa
.

algo me diz que agora vai começar a ser, de fato, divertido
( ! )
Eu adoro quando a minha racionalidade volta!

Antes eu sentia uma vergonha imensa do dramalhão pretérito.
Mas... bem... a gente amadurece, 'né...?
E amadurecer deve ter um pouco a ver com conseguir divertir-se consigo mesmx.

E agora, quando a minha racionalidade volta, e eu vejo no chão a quantidade de cabelo arrancado, quando eu miro o espelho e me deparo com o rímel todo borrado, quando eu me dou conta que tenho uma capacidade inesgotável de dar um tamanho fabulosamente irreal pras coisas, eu me acabo de rir!
- Porra, eu sou exagerada pra cacete!

Não me escondo mais.
Muito prazer, eu sou um ser deliciosamente dramático!
(com intervalos de racionalidade, porque, afinal, sempre há louça suja esperando pra lavar)

domingo

Não há solidão possível para quem está rodeada por seus deuses.

Obaluiaiê explica a sua necessidade de olhar as feridas com os olhos bem abertos.
Nanã a presenteia com o seu apreço pelo silêncio.
Yansã lhe dá a capacidade de bramir uma espada.
Iemanjá, tão mãe de todos, aparece sempre com seu cuidado, abaixando suas águas quando a moça, que não sabe nadar e morre de medo do mar, precisa atravessar.

Mas Oxum...
Oxum a moça sempre olhou de longe. E com certa empáfia.
Nunca aprovou seus meneios, que julgava meio sonsos.
Nunca precisou dos seus dengos, já que ela sabia reluzir em vermelho.
A moça, brisa vento ventania, comprimia qualquer doçura até transformá-la em furacão .

Até o dia que Oxum invadiu a vida da moça.
Sob o nome de amor; mas a encheu de loucura e confusão.

E ela choveu. Por dias. Semanas. Meses. Sem parar.
Choveu, choveu, choveu. Forte e incessantemente.
Gritou. Lutou. Rasgou.
Secou.
E foi tanta água, tanta água, mas tanta água, que, ela nem reparou direito, um rio se formou.

Um rio de águas doces.

Um rio das águas doces de Oxum.

Tonta ela ainda tateia este novo estado.
Se olha no espelho atônita. Encantada (quem não se encanta por Oxum...?).

Iansã diz que deixa. Diz que cede.
- Deixa a menina descansar um pouquinho!
As suas unhas, ainda (sempre) pintadas do mais puro vermelho, não trazem mais um dedo em riste.
Que - agora - não tem por quê.

Pintar-se de ouro. Levantar o espelho. Sorrir.

Oraieieô,

madrinha.

(!...)





quinta-feira

Aí você pensa que já se conhece o suficiente, que já sabe lidar o suficiente com os seus méritos e deméritos, você pensa que já delineou a parte que lhe cabe no latifúndio, que já sabe o que as pessoas esperam de você, que... porra! Você pensa que é seguir, se aperfeiçoando um tiquinho aqui, um tiquinho ali... Você só tem 32 anos, mas você pensa - cacete! - que já viveu o pouquinho suficiente para, dali pra frente, só ir repetindo os ciclos e roteiros, apenas mudando um pouquinho as cores das tintas.

Mas aí... o que a vida, aquela safada, faz...?

Ela dá um riso de canto de boca, sentindo uma satisfação meio sádica.

Ela joga, como uma bigorna, no meio da sua cabeça, uma situação que você nunca imaginou viver. Junto, vem uma leva de sentimentos que você nunca sabia que ia sentir. E você, que gosta de velar suas emoções, sente uma certa tontura, porque é tudo novo demais! É tudo virgem. Parece que você acabou de nascer.

- Eu não vou dar conta! - você pensa uma, duas, cinco, doze vezes!
- Eu não vou dar conta! - você grita, desesperada.
- Eu não vou dar conta! - você chora, babando, em pânico, doida pra fugir correndo!

Você quer correr de volta pro lugar de sempre.
Para os confortos e desconfortos que você já havia decorado, de tão conhecidos, repetidos, revividos.

Mas você não foge...
Porque a vida lhe tinha outros planos...
Agradeça.
Eu sei... há o medo de se perder diante do espelho.
Há o medo de sucumbir e morrer.

Pois se perca.
Pois morra!

Que depois vai vir a sua próxima vida.

E toda vida vale à pena.

sábado

Eu não confio em gente que é alegre o tempo todo.
Eu quero distância de gente que não se desespera.
É por isso que o avançar da idade pode deixar as pessoas mais bonitas...
Porque a dor deixa de causar terror.
Abandona-se a ilusão da felicidade absoluta.
Encara-se os fantasmas. Dialoga-se com as fraquezas. Aceita-se as feiuras.
Gente que se deixa sucumbir parece-me tão mais gente...!
Quem é que não perde de vez em quando?
É preciso sentir um medo muito absoluto para não admitir.
Tudo o que existe é também o seu oposto.
Se você nega suas sombras, iaiá, vai precisar produzi-la em outro lugar.
E não há de ser em mim.
Porque eu não confio em gente que é alegre o tempo todo, porque eu quero distância de gente que não se desespera.
Das verdades absolutas sobre a vida, eu lhe digo esta:
Não há como ser luz sem ser também escuridão.
Um brinde às pessoas de verdade!

quinta-feira

Uma das coisas bonitas que acontece à medida que a idade cresce, é ver as certezas se dissolvendo. Envelhecer deve ser isso... Ir acumulando passagens pelo mesmo ponto. Então aí você olha para as suas verdades absolutas e simplesmente ri delas! Veja bem, eu não estou dizendo que fica fácil - gente gosta de agonias - eu estou dizendo que fica um pouco divertido! Meio sarcástico. Meio cru. Cruel, talvez. Porque a coleção de conceitos que você fazia tanta questão de exibir, não fazem mais sentido. Você já passou pela mesmo tipo de experiência tantas vezes, e de formas às vezes tão absolutamente diferentes, que a única coisa que resta é repetir para si mesma: Ok, entendi. Entendi que nem sempre sou eu que controlo - inclusive o que acontece por dentro. Entendi que os meus fantasmas fazem parte de mim, me assombrar é a função deles, e às vezes é bom pedir socorro. Entendi que há limites. Entendi que nem sempre é saudável querer ultrapassa-los. Entendi que eu posso ficar com raiva dos meus vícios emocionais a ponto de conseguir me livrar deles. Entendi que nós somos feitos de camadas, e é falacioso decretar afirmativas absolutas sobre si. Entendi que a morte não existe.
Tudo .sempre. se refaz.
Entendi que amanhã eu posso estar entendendo tudo diferente novamente.

Eu sempre fui meio velha.
ó, eu não acredito em salvação não, viu? 
jesus não vai voltar.
essa vida perfeita, justa, harmoniosa, feliz (seja lá o que sejam todas essas coisas!), não existe não.
sempre haverá divergências. sempre haverá conflito. sempre haverá insatisfação.
então a gente não luta pra "resolver" (mas a movimentação é inevitável)
a gente luta pra transformar. pra construir de outro jeito. para experienciar outra coisa.
é delicioso estudar gente sendo gente!
que este mundo na maioria das vezes dá raiva, dor e embrulho no estômago.
esse mundo é de destruição.
só que aí é que está!
destruição e construção são nomes pra mesma coisa
então também é gostoso demais ser gente...!
é tanta sensação pra experimentar, que a gente fica viciado nessa porra!

Planeta Terra, seu lindo, um beijo pra você e seus momentos socias chave de transformação.

da série: meio haribô, meio de esquerda
deus é mais!
É mais mesmo... Porque Deus é essa capacidade que a vida tem de ser cíclica.
Porque, de repente (mentira... nada é tão 'de repente' assim! mas é que escrever 'de repente', deixa a frase mais bonita)
Então!
É porque ***de repente*** você percebe que já recuperou 3 kg, e que não está prestando mais tanta atenção às vicissitudes da vida (vicissitude é uma coisa danada de feia, mas é uma palavra tão bonita...!); e que está sentindo prazeres imensos com coisas tão simples, como estudar uma coisa que você gosta; e que tudo é tão imenso que... ah... não te dá vontade de mergulhar? E que as pessoas também são carregadas de beleza, aí você se pega valorizando as belezas e bebendo delas assim sem crise e sem cobrança; que é uma forma de se alimentar da alegria alheia sem onerar nada, nem ninguém. Porque na verdade você nem está com fome, então comer a alegria alheia vira uma maneira de potencializar a alegria.
As dores passam, os machucados curam, as tristezas se desfazem, os cortes que você permitiu que fizessem na sua pele, viram marcas significativas de quem se permite se debater.
Aí já é hora de cantar de novo e dançar com a sua saia mais rodada.
E às vezes você nem sai pra dançar no meio do salão. Você dança no seu cantinho mesmo, pra ninguém ver, porque não é plateia o que você quer no momento.
No momento, você quer é dançar pra dentro de você!...
A casa da minha mãe é longe. É silenciosa. Faz um leve friosinho quando a noite cai. A casa da minha mãe tem gato e tem cachorro. E, ok, dá um certo ódio no coração se é você que tem que limpar, mas quando você se vê sentada no chão com um gato escalando as suas costas enquanto um cachorro enfia o focinho nas suas mãos, bom... você releva a bagunça que eles fazem! A casa da minha mãe parece que fica no centro do furacão, porque quando estou aqui dentro, parece que não está acontecendo absolutamente nada lá fora. A casa da minha mãe é como colo de mãe. Mesmo que sua mãe seja completamente diferente de você (vai... nem é tanto assim!). Mesmo que você seja desaforada. Mesmo que ela viva em outra lógica social, em outro espaço temporal, em outra dimensão astral, bem longe do planeta Terra...! Mesmo que você morda ela de vez em quando (ou de vez em sempre). A casa da minha mãe - que é longe, silenciosa e meio fria, tem a incrível capacidade de manter longe os meus demônios. Os demônios respeitam as mães. Eles não ousam entrar aqui.
A casa da minha mãe, mais que qualquer lugar do mundo, sabe muito bem quem eu sou. Sabe mais do que eu. Porque eu... bem... eu sou míope.
Mas na casa da minha mãe eu nem preciso de olhos.
Nem de cérebro. Nem de epiderme. Nem de ouvidos.
Eu chego, entro, fico e, quando menos espero, me pacifico.
Qual é o antônimo de consenso?
(discórdia divergência dissenso colisão contrariedade oposição dissentimento heterodoxia dissensão dissidência desarmonia discordância)
Que quero eu neste mundo de dissenso, pois então?
1 - Parar de brigar com ele.
2 - Voltar a sentir curiosidade.
3 - Banir as respostas definitivas.
4 - Voltar a sentir prazer nas multidões.
5 - Voltar a gostar de conhecer pessoas novas.
6 - Voltar a ser um tanto boba, porque a gravidade puxa mesmo para baixo, e um dos maiores desejos humanos sempre foi o de ter a capacidade de voar. (ok, isso ficou muito brega, mas vou deixar assim)
7 - Ser corajosa.
8 - Me saber foda, mesmo que não seja sempre.
9 - Escrever cada vez mais lindo. 
10- Dinheiro suficiente para os confortos.
11 - Saber-me merecedora do amor.
12 - Amar de volta.
13 - Amar sem defesa, porque ninguém morre disso no final das contas.
14 - Ter paciência para a falta de magia do dia a dia.
15 - Ser mais brisa e menos tempestade.
16 - Passar mais tempo do lado de fora da caverna.

Amém.
Não é apenas que eu goste de mudanças, que eu precise de mudanças, que eu me sinta viva através das mudanças.
E elas vêem... Elas, solidárias, amigas, compreensivas, sabedoras da minha necessidade, elas simplesmente vêem. E é um absurdo que eu nunca tenha prestado atenção suficiente para agradecê-las devidamente.
Acontece que eu, que nunca soube lidar com dias que seguem iguais, e que não tenho sabedoria para lidar com o tempo do Tempo, às vezes vou lá no saco da Vida, e o rasgo com as minhas unhas afiadas, adiantando uma mudança que não estava planejada.
Isso dói.
Eu preciso urgentemente aprender a ser mais brisa, e menos tempestade.

terça-feira

GUERRILHA

Há de se fazer as pazes.
Consigo - por estar aqui.
Com o outro - por ser como é.
Com as lógicas das coisas - construídas incessantemente por todas as mãos.

Há de se fazer silêncio e se esgueirar da necessidade de porquês.
(por que perguntas, se nenhuma resposta será satisfatória?)

Mas qual é o sentido? (interrogações, nosso mais inevitável destino...)

Eu não sei qual é o sentido. Eu não tenho a menor condição de ao menos tentar entender.

Então feche os olhos e lembre das pequenas sensações deliciosas: o vinho, o início da embriaguez, o arrepio da pele que responde a um toque desejado, o gozo, o sono, o riso altruísta, o encontro inenarrável de almas quando se reconhecem, a exaustão transcendente de um corpo que dança, a música que acarinha dentro das células, olhar um bicho, escolher trazer um filho, submergir em águas, falar com a sua deusa. O que mais?

Para não sucumbir, é preciso prestar atenção às sensações. Às diminutas sensações. Às imperceptíveis sensações que passam rápido como piscadelas. Mas que nos avisam que nem só de socos e gritos é feita a vida neste mundo.

Por uma cada vez mais atenta sensualidade.

Para não sucumbir.
Para resistir.
Para vencer.

sexta-feira

Saber morrer é ter um algo pra se orgulhar.
Morrer é doloroso.
É lento.
Escuta: morrer é lento.
Mortes fast food são mortes de vitrine. São mortes apenas para angariar elogios.
Morrer é um processo gradativo; às vezes mais, às vezes menos sofrido.
Morrer é a arte de se escutar.
É a arte de não ter medo da dor.

Luto é uma forma de luta.

Mas o luto cessa.

A vida recomeça.

O círculo mais que perfeito.