sexta-feira

o súbito frio na barriga acaba de me avisar que acabados os festejos de momo, estará chegada a hora
na delícia que têm sido estes meus dias, eu já tinha até esquecido que vou partir... já estava olhando novamente para as minhas ruas e as minhas gentes, sem olhos de despedida
já estava caminhando novamente sem o pavor (inevitável) do porvir

as mãos ficaram geladas
bem agora
o coração descompassou
deu vontade de chorar

quando momo for embora precisarei ser tomada pela minha ventania
e fazer as malas
e distribuir os abraços apertados
dar adeus aos amores (será preciso...?)
pegar a pouca coragem que me cabe
e seguir

que o futuro me receba com carinho

ora bolas, eu mereço!
Não se adiante.
A perfeição é redonda.
O encaixe se dá quase sem querer, numa consequência inevitável dos passos.
Não se engane.
Bençãos não atemorizam.
Não agoniam.
Não fazem murchar - nem por um segundo.

A fluidez sem barrancos é a prova mais incontestável do sucesso.

segunda-feira

quando há uma confiança meio cega e nada planejada na sua própria capacidade de manejar a vida (ou com a ajuda das deusas, que seja) (e porque, afinal, você não está mais tão preocupadx se o porvir se enquadrará na caixinha do 'bom' ou na caixinha do 'ruim'), a necessidade incessante de planejar o pé para o próximo passo, ou preparar os dedos para a olaria, graciosamente se esvai
é quando você enxerga que há uma grande poltrona confortável bem atrás de si

então você senta
e observa
.

algo me diz que agora vai começar a ser, de fato, divertido
( ! )
Eu adoro quando a minha racionalidade volta!

Antes eu sentia uma vergonha imensa do dramalhão pretérito.
Mas... bem... a gente amadurece, 'né...?
E amadurecer deve ter um pouco a ver com conseguir divertir-se consigo mesmx.

E agora, quando a minha racionalidade volta, e eu vejo no chão a quantidade de cabelo arrancado, quando eu miro o espelho e me deparo com o rímel todo borrado, quando eu me dou conta que tenho uma capacidade inesgotável de dar um tamanho fabulosamente irreal pras coisas, eu me acabo de rir!
- Porra, eu sou exagerada pra cacete!

Não me escondo mais.
Muito prazer, eu sou um ser deliciosamente dramático!
(com intervalos de racionalidade, porque, afinal, sempre há louça suja esperando pra lavar)

domingo

Não há solidão possível para quem está rodeada por seus deuses.

Obaluiaiê explica a sua necessidade de olhar as feridas com os olhos bem abertos.
Nanã a presenteia com o seu apreço pelo silêncio.
Yansã lhe dá a capacidade de bramir uma espada.
Iemanjá, tão mãe de todos, aparece sempre com seu cuidado, abaixando suas águas quando a moça, que não sabe nadar e morre de medo do mar, precisa atravessar.

Mas Oxum...
Oxum a moça sempre olhou de longe. E com certa empáfia.
Nunca aprovou seus meneios, que julgava meio sonsos.
Nunca precisou dos seus dengos, já que ela sabia reluzir em vermelho.
A moça, brisa vento ventania, comprimia qualquer doçura até transformá-la em furacão .

Até o dia que Oxum invadiu a vida da moça.
Sob o nome de amor; mas a encheu de loucura e confusão.

E ela choveu. Por dias. Semanas. Meses. Sem parar.
Choveu, choveu, choveu. Forte e incessantemente.
Gritou. Lutou. Rasgou.
Secou.
E foi tanta água, tanta água, mas tanta água, que, ela nem reparou direito, um rio se formou.

Um rio de águas doces.

Um rio das águas doces de Oxum.

Tonta ela ainda tateia este novo estado.
Se olha no espelho atônita. Encantada (quem não se encanta por Oxum...?).

Iansã diz que deixa. Diz que cede.
- Deixa a menina descansar um pouquinho!
As suas unhas, ainda (sempre) pintadas do mais puro vermelho, não trazem mais um dedo em riste.
Que - agora - não tem por quê.

Pintar-se de ouro. Levantar o espelho. Sorrir.

Oraieieô,

madrinha.

(!...)





terça-feira

Menino caiu, bateu a cabeça. Normal.
Saio com o menino pra pegar gelo. Volto com o menino, ele com cara de "por que a vida é tão injusta comigo?".
Outro menino pergunta:
- Você chorou?
- Eu não! (chorou sim)
- Você é homem?
- (...)
Eu farejo o perigo, eles continuam:
- Porque homem não chora!
(estamos em 2013 e são crianças de uns sete, oito anos... pois bem...)

- Quem disse que homem não chora?! - falo - alto - muito alto, gritando (porque, para tamanho absurdo, a abordagem não pode ser tímida).
Eles me encaram, meio surpresos, e o que estava falando me responde:
- Meu pai. (faz-se o que com homis que ainda falam essas coisas pros filhos, gente?!)

- Homem sente dor? - pergunto.

Ninguém me responde.

Eu mesma continuo: homem sente dor; igual a mulher; e se não chorar o choro vai ficando preso, ficando preso, ficando preso, ficando preso, ficando preso, ficando preso, e o homem acaba fazendo cocô nas calças!

Gargalhadas.

- Quem não chora faz cocô nas calças! - eles riem e repetem, repetem, repetem.

E eu segui com a sensação de que salvei uma alma;
a minha, pelo menos...
- Onde é que vocês aprenderam isso?! - perguntei, metade curiosa, metade desconfiada.
Elas (eram quatro ou cinco), congelaram e me olharam esbugalhadas. Não responderam.
- Onde?! - insisti.

- Foi meu tio que me ensinou... - respondeu uma delas, meio que pedindo desculpa.

- É de Karatê Kid! - eu disse, triunfante, diante de quatro ou cinco meninas que nasceram em 2007 e nunca terão a dimensão de como o Senhor Miyagi formou o caráter de milhões e milhões e milhões de crianças em todo o mundo.

Então uma delas, por certo como reação ao meu ar superior, comentou com desdém: eu assisti; filme horrível!

- Então POR QUE você ´tá fazendo o golpe dele?!
(silêncio)
Continuei: É o golpe que fez Daniel San ganhar a luta!

Eu estava meio que chateada mesmo... (como elas se atreviam?! se utilizar do golpe sem apreciar o filme...?). Proíbo!
Daniel San foi o meu primeiro amor e eu PROÍBO que achincalhem a memória dele.

Apois!

quinta-feira

- Pró, você tem marido?

O que leva uma criança de 7 anos a interromper uma contação de histórias – que nada tem a ver com esposas e maridos – para fazer uma pergunta destas, é coisa que eu não tenho como saber.

Mas respondi “Não, não tenho não”, e tentei voltar para a história.

- Como assim não tem marido?!
- Não tendo! Oxe, Maria Clara, não é obrigado não, viu? 

Maria Clara, visivelmente entristecida, continuou:

- Por que você não tem marido...?

Pensei em várias respostas possíveis, tipo: porque eu não quero, porque ninguém quis casar comigo, porque talvez eu prefira uma marida, mas respondi “não sei”.

- Você tem quantos anos?
- Trinta e dois.

E ela ia continuar as perguntas, mas foi interrompida pelas outras crianças, ávidas em participar, dizendo freneticamente quantos anos suas mães tinham.

Lá pelas tantas, a história já tinha acabado, já estava todo mundo fazendo outra coisa, Maria Clara volta:

- Você não tem jeito de 32 anos não...
- Hum...!
- Você tem jeito de uns 20!
- Hum...!!
- Não fique triste não, quando você tiver jeito de 30, vai aparecer um marido pra você...

(...)

Alguém mais perdeu a esperança de que os valores podem ser reconstruídos?
Aí você pensa que já se conhece o suficiente, que já sabe lidar o suficiente com os seus méritos e deméritos, você pensa que já delineou a parte que lhe cabe no latifúndio, que já sabe o que as pessoas esperam de você, que... porra! Você pensa que é seguir, se aperfeiçoando um tiquinho aqui, um tiquinho ali... Você só tem 32 anos, mas você pensa - cacete! - que já viveu o pouquinho suficiente para, dali pra frente, só ir repetindo os ciclos e roteiros, apenas mudando um pouquinho as cores das tintas.

Mas aí... o que a vida, aquela safada, faz...?

Ela dá um riso de canto de boca, sentindo uma satisfação meio sádica.

Ela joga, como uma bigorna, no meio da sua cabeça, uma situação que você nunca imaginou viver. Junto, vem uma leva de sentimentos que você nunca sabia que ia sentir. E você, que gosta de velar suas emoções, sente uma certa tontura, porque é tudo novo demais! É tudo virgem. Parece que você acabou de nascer.

- Eu não vou dar conta! - você pensa uma, duas, cinco, doze vezes!
- Eu não vou dar conta! - você grita, desesperada.
- Eu não vou dar conta! - você chora, babando, em pânico, doida pra fugir correndo!

Você quer correr de volta pro lugar de sempre.
Para os confortos e desconfortos que você já havia decorado, de tão conhecidos, repetidos, revividos.

Mas você não foge...
Porque a vida lhe tinha outros planos...
Agradeça.
Eu sei... há o medo de se perder diante do espelho.
Há o medo de sucumbir e morrer.

Pois se perca.
Pois morra!

Que depois vai vir a sua próxima vida.

E toda vida vale à pena.
- Você tem algum livro que explique o que fazer quando alguém abusa a gente?
(eu sou a pró contadora de histórias, que trabalha na biblioteca)
(ele é Mateus, 8 anos)
- Vou procurar! 
E Mateus foi me contando como Maria Luíza havia se tornado um problema na sua vida.

Não havia nenhum livro que explicasse o que fazer quando alguém abusa a gente...

- Ignore, Mateus.
- Como assim?
- As pessoas que abusam, abusam porque sentem prazer quando a pessoa que elas abusam se irritam. Então, se você ignorar, Maria Luíza vai achar chato te abusar, e vai parar!
(eu fazia isso e, contra todas os prognósticos, eu sobrevivi à infância)

Na hora do recreio Mateus voltou.
- Funcionou, viu?!
(Mas, já!? - eu pensei. Ôh, Mateus... antes fosse só assim...)

Uma semana depois, olha Mateus de novo!
- Será que você poderia me falar mais alguma coisa sobre aquele meu problema?
(ôhmôdeuso! o instinto maternal que, sim, eu tenho, se contorce todo dentro de mim numa hora dessas...)

Agora não é só Maria Luíza, é Enzo também.

Ainda não deu tempo d'eu dizer para Mateus - eu, que contra todos os prognósticos, sobrevivi à infância -, porque ele teve que voltar pra sala logo depois que me explicou a situação. Mas eu vou dizer que quando ignorar não basta, quando 'eles' ganham força, a despeito do nosso desprezo, então é hora de mostrar os dentes. Como os felinos. Que se arrepiam inteiros, para parecerem maiores. Que ameaçam morder. Que, quando não tem mais jeito, mordem mesmo!

- Defenda o seu território, Mateus. Principalmente se for o seu território emocional.

E não se enganem Maria Luíza e Enzo... Uma vez superada a peleja, é Mateus que, diante da vida, se tornará o verdadeiro forte.
Todos os dias eu durmo e acordo e a vida está sempre comigo. Daqui há 3 meses faço 30 anos e as pessoas continuam me dando 22. Daqui há 1 mês eu volto pra universidade e isso faz eu me lembrar de quando eu tinha 19. Tem dias que eu fico muito confusa, ou muito triste, ou muito frustrada. Tem dias que me sinto animada, plena, ou apaixonada. 

Quando eu entro no meu vale, no meu próprio vale particular onde todo o resto de mim reside, eu sou deus e isso não tem mais discussão!

Deus sempre foi meu pai e meu amigo.

Agora ele é minhas unhas pintadas de vermelho, ele é minha vontade de estudar Gênero, ele é o meu prazer de estar no palco, ele é o que eu sinto quando estou contando histórias para as crianças, ele é os meus medos olhados nos olhos, ele é as minhas inseguranças, ele é a minha falta de pudor em mudar sem seguir planos.

Eu li a Bíblia inteira, eu decorei versículos, cantei canções dentro de templos cristãos, li livros espíritas, saí do meu próprio corpo, voei, ouvi anjos, pedi conselhos pros Orixás, coloquei cristais na cabeceira da minha cama, estudei tarot, risquei com xingamentos os meus livros de Osho, sentei e chorei milhares de vezes.

Acreditar em Deus sempre foi tão natural para mim quanto dar descarga depois de fazer xixi.

PORQUE EU SOU DEUS TAMBÉM.

quarta-feira

Eu sempre bati orgulhosa no peito, dizendo antes para mim, mas também para o mundo "eu sei me despedir!". Sei mesmo... Sou elegante, discreta, reservo apenas para os absolutamente íntimos as lamúrias eventuais. Escrevo bastante, é verdade, que é a minha forma de fruir a vida. Até já enlouqueci uma ou duas vezes, que ninguém é de pedra, e saídas do trilho são sempre histórias boas de contar. Mas, sim, é verdade, eu sei me despedir. Tenho é que aprender a florescer, mas isso é outra história, e o meu mapa astral nem favorece muito este item... Só que o importante é saber quando é a hora do adeus definitivo. Nem sempre é quando cabeça decide - é bom saber respeitar os sinais do coração.
So que aí
chega aquele momento
que não há mais o que fazer
.

Eu acho que a minha alma está faminta de inícios.
Porque, num pequeno intervalo, me colocou diante de portas que já deviam estar fechadas.
Mas creio que eu precisava de um respiro de carinho antes de acabar.
Porque a mágoa nunca é um bom adeus.
Então a vida, esta malandra, pega pela mão e diz "chegue aqui mais um pouquinho...". Para dar o último aconchego antes do fim.

Se você puder - e sim, isto é um conselho - nunca bata a porta com força. Nunca vá embora com dor. Se depois da raiva o mundo fizer um novo cruzamento de caminhos, aceite. É porque o enredo ainda não acabou. Mas também atenção para os sinais. Os de dentro, pois são os mais confiáveis. Um coração fortalecido é sempre o melhor conselheiro. E é ele que sempre sabe quando dizer 'já chega'. Um coração curado é sempre o melhor porta voz para uma despedida verdadeira.

Reencontros depois do fim podem ser uma das coisas mais bonitas...
Se você já limpou a casa, se você já se perfumou, se as janelas já estão abertas novamente e o ontem reaparece diante de sua porta, não digo que abra de pronto, porque nem sempre é uma coisa saudável, mas se surge o desejo leve (e note bem, eu disse 'leve', e isso é coisa que qualquer um é capaz de discernir); se surge o desejo leve... ora... abra!
Pode ser um reinício.

E pode ser um bonito, tranquilo, maravilhoso e genuíno
fim.

FIM

segunda-feira

Eu queria ser dessa gente que se alimenta do que existe no lado de fora. Pois se existe uma única coisa constante sobre mim, é que se eu estou na praça, a céu aberto, é porque tudo vai bem ao meu coração. E, nestes momentos, a rua é minha! Eu a conheço, eu a escuto, eu a domino. Porque eu sou do tipo de gente que venta pra dentro. Não se engane. Dentro de mim o ar nunca para de mudar de direção. Sim, é cansativo. Mas há como fugir de si?

Mas a rua, ela, com seus apelos, seus anseios, sua fome; ela, a rua, que é, em si, um torvelinho eternamente caótico, se eu não tiver cuidado, me desespera. Eu não sou da rua. Eu sou de ‘da porta pra dentro’. Eu preciso de silêncio como preciso de água.

Então se você me vir na rua, de sorriso farto e saia rodada, tenha certeza: tudo vai bem. Tudo em paz. Tudo assentado no lugar. É porque os meus pés estão firmes no chão. É porque minhas mãos estão macias. É porque as perguntas calaram e dormiram. Então eu, que sou egoísta e sinto necessidade de manter as coisas sob controle, posso finalmente me comunicar com o lado de fora. E nestas horas a rua sempre me responde saltitante, como se dissesse “fico feliz de estar aqui”. Então dançamos uma ou duas músicas, nos beijamos no rosto e eu digo “até a próxima”.

Às vezes eu penso mesmo que gostaria de ser dessa gente que se alimenta do que existe no lado de fora... Eles não parecem sempre mais felizes? Não parece que a vida é sempre leve e o mundo gira sem lhes dar tontura? Não parece que eles são tão disponíveis porque, afinal, não há nada que queiram proteger ou concertar tanto dentro de si? Essa gente que se alimenta do que existe no lado de fora, ao contrário de mim, que saro as feridas com a minha saliva, vão buscar nos ruídos do mundo a sua cura. Não parece mais divertido? Quase parece que eles não têm feridas; nem perguntas insistentemente sem respostas; nem potes quebrados; nem calafrios sem explicação; nem carências; nem pedidos mudos; nem demônios eloquentes que moram dentro das suas cabeças. Parece que essa gente, que se alimenta do que existe do lado de fora, pode ser considerada mais feliz, não é?

(mas também não é uma bobagem desmedida tentar medir  ~~~felicidade~~~~ ?)

Pois então ela, a rua, não é a minha casa.

A visito quando quero celebrar.

Não para acalmar, não para esquecer, não para cuidar.

A rua é, apenas, o meu lugar de comemoração. De agradecimento.

Logo depois, de volta, me recolho.

É preciso concentração para escutar.
Torvelinho, ventania, tempestade.

sábado

Eu não confio em gente que é alegre o tempo todo.
Eu quero distância de gente que não se desespera.
É por isso que o avançar da idade pode deixar as pessoas mais bonitas...
Porque a dor deixa de causar terror.
Abandona-se a ilusão da felicidade absoluta.
Encara-se os fantasmas. Dialoga-se com as fraquezas. Aceita-se as feiuras.
Gente que se deixa sucumbir parece-me tão mais gente...!
Quem é que não perde de vez em quando?
É preciso sentir um medo muito absoluto para não admitir.
Tudo o que existe é também o seu oposto.
Se você nega suas sombras, iaiá, vai precisar produzi-la em outro lugar.
E não há de ser em mim.
Porque eu não confio em gente que é alegre o tempo todo, porque eu quero distância de gente que não se desespera.
Das verdades absolutas sobre a vida, eu lhe digo esta:
Não há como ser luz sem ser também escuridão.
Um brinde às pessoas de verdade!

quinta-feira

Uma das coisas bonitas que acontece à medida que a idade cresce, é ver as certezas se dissolvendo. Envelhecer deve ser isso... Ir acumulando passagens pelo mesmo ponto. Então aí você olha para as suas verdades absolutas e simplesmente ri delas! Veja bem, eu não estou dizendo que fica fácil - gente gosta de agonias - eu estou dizendo que fica um pouco divertido! Meio sarcástico. Meio cru. Cruel, talvez. Porque a coleção de conceitos que você fazia tanta questão de exibir, não fazem mais sentido. Você já passou pela mesmo tipo de experiência tantas vezes, e de formas às vezes tão absolutamente diferentes, que a única coisa que resta é repetir para si mesma: Ok, entendi. Entendi que nem sempre sou eu que controlo - inclusive o que acontece por dentro. Entendi que os meus fantasmas fazem parte de mim, me assombrar é a função deles, e às vezes é bom pedir socorro. Entendi que há limites. Entendi que nem sempre é saudável querer ultrapassa-los. Entendi que eu posso ficar com raiva dos meus vícios emocionais a ponto de conseguir me livrar deles. Entendi que nós somos feitos de camadas, e é falacioso decretar afirmativas absolutas sobre si. Entendi que a morte não existe.
Tudo .sempre. se refaz.
Entendi que amanhã eu posso estar entendendo tudo diferente novamente.

Eu sempre fui meio velha.
ó, eu não acredito em salvação não, viu? 
jesus não vai voltar.
essa vida perfeita, justa, harmoniosa, feliz (seja lá o que sejam todas essas coisas!), não existe não.
sempre haverá divergências. sempre haverá conflito. sempre haverá insatisfação.
então a gente não luta pra "resolver" (mas a movimentação é inevitável)
a gente luta pra transformar. pra construir de outro jeito. para experienciar outra coisa.
é delicioso estudar gente sendo gente!
que este mundo na maioria das vezes dá raiva, dor e embrulho no estômago.
esse mundo é de destruição.
só que aí é que está!
destruição e construção são nomes pra mesma coisa
então também é gostoso demais ser gente...!
é tanta sensação pra experimentar, que a gente fica viciado nessa porra!

Planeta Terra, seu lindo, um beijo pra você e seus momentos socias chave de transformação.

da série: meio haribô, meio de esquerda
Eu tava vindo pra casa agora, bem na muvuca do Forte de São Pedro, quando um cara olhou pra mim e comentou com o outro, com a maior cara de desdém deste mundo inteiro:
- Essas menininhas neo hippie, pós punk de butique...
Que diabo é neo hippie, pós punk (de butique)?!

OBS: Um beijo pra você que é chamada de 'menininha' aos 33.
ESCRITO EM 04.08.2013

- Lisa...
- Oi?

- 'Sacana' é palavrão?
- É.

- Pôxa! A gente não pode falar nada!
- 'Pôxa' pode.
Não, eu nunca sofri nenhum abuso sexual.

Eu tenho um trabalho onde eu fico nua. E onde eu falo sobre a sexualidade feminina. 

Eu tenho quatro cicatrizes grandes na altura do quadril.
Não, eu nunca sofri nenhum acidente.
Eu nasci com um problema ortopédico que me renderam três cirurgias ainda na infância. Daí as cicatrizes.

Eu tenho um trabalho onde eu fico nua quase que o tempo inteiro. Obviamente as cicatrizes aparecem.

Não, eu não gosto delas. Mas aprendi a achar o meu corpo bonito e desejável mesmo assim.

Eu sou feminista.
Daquelas que falam destas questões quase que o tempo inteiro.
Porque o feminismo, dentre outras coisas, é uma forma de olhar para o mundo.

Associar as minhas cicatrizes, e a minha panfletagem feminista a um abuso sofrido é ser, talvez, simplista. É, talvez, precisar justificar as minhas palavras. É, talvez, concluir que uma mulher só pode se incomodar tão profundamente com as violências que as mulheres sofrem, se ela tiver sofrido, em si, uma violência tão radical quanto um abuso sexual.
Tirando as cantadas de rua que, sim, são invasivas e agressivas, eu nunca passei por nada mais radical.

Existe uma palavra, não muito conhecida, chamada SORORIDADE.
É a palavra que nomeia a sensação de irmandade entre as mulheres.
Que, em palavras de ordem, pode ser traduzida como "MEXEU COM UMA, MEXEU COM TODAS!"

Violências sofridas por mulheres mexem profundamente comigo.
Mesmo que eu não tenha, pessoalmente, nenhuma história triste para contar sobre isso.

Eu nunca apanhei (eu nunca nem ouvi nenhum grito de nenhum homem). Eu nunca abortei. Eu nunca fui estuprada.

Entendo que numa obra artística, tudo vira signo.
Então, sim, entendo que as minhas cicatrizes, junto do meu discurso feminista, pode ser lido como "ela sofreu alguma coisa muito séria pra estar falando isso".

Só me espanta que pessoas que não me conhecem na intimidade afirmem isso categoricamente.

Sim, eu me exponho. E, sim, isso dá margem para muitas interpretações; porque nós, seres humanos, sentimos necessidade de entender os porquês das coisas.
E a forma que eu me exponho, é a "pior" possível.
Porque é aqui no facebook. Era no meu extinto blog. Foi em um dos meus trabalhos artísticos. E isso vai abrindo portas nas mentes das pessoas.
Ok. Há preços. Preciso saber pagá-los.

Se eu tivesse sofrido alguma violência profunda, como um abuso sexual, é provável que eu, sim, falasse (ou melhor, escrevesse) sobre isso. Porque é a minha forma de expurgar as coisas.

E este texto, na verdade, é só um pedido:
pergunte.
Antes de atender ao seu impulso de concluir as coisas, baseado nas suas caixas de referência.

E é mais outro pedido, principalmente se você é uma mulher:
SORORIDADE.
O mundo inteiro está desesperadamente carente disto.
deus é mais!
É mais mesmo... Porque Deus é essa capacidade que a vida tem de ser cíclica.
Porque, de repente (mentira... nada é tão 'de repente' assim! mas é que escrever 'de repente', deixa a frase mais bonita)
Então!
É porque ***de repente*** você percebe que já recuperou 3 kg, e que não está prestando mais tanta atenção às vicissitudes da vida (vicissitude é uma coisa danada de feia, mas é uma palavra tão bonita...!); e que está sentindo prazeres imensos com coisas tão simples, como estudar uma coisa que você gosta; e que tudo é tão imenso que... ah... não te dá vontade de mergulhar? E que as pessoas também são carregadas de beleza, aí você se pega valorizando as belezas e bebendo delas assim sem crise e sem cobrança; que é uma forma de se alimentar da alegria alheia sem onerar nada, nem ninguém. Porque na verdade você nem está com fome, então comer a alegria alheia vira uma maneira de potencializar a alegria.
As dores passam, os machucados curam, as tristezas se desfazem, os cortes que você permitiu que fizessem na sua pele, viram marcas significativas de quem se permite se debater.
Aí já é hora de cantar de novo e dançar com a sua saia mais rodada.
E às vezes você nem sai pra dançar no meio do salão. Você dança no seu cantinho mesmo, pra ninguém ver, porque não é plateia o que você quer no momento.
No momento, você quer é dançar pra dentro de você!...

Sobre pós graduação, paternidade e religião

Eu transformei em brincadeira o fato d'eu ficar pulando de graduação em graduação, ao invés de partir logo para um mestrado, caminho tão "natural". Mas são duas as respostas para a pergunta "Lisa, por que não vai logo tentar um mestrado?!": a primeira é que eu entendi que não gosto tanto assim de teatro! Não ao ponto de me dedicar academicamente a ele. E a segunda é que eu não tenho ainda nenhuma PERGUNTA! E só agora, fazendo a graduação em História, tenho ganhado a dimensão da importância de uma indagação, ao se debruçar sobre alguma coisa.
Agora, estudando História, eu estou sentindo, pela primeira vez, um prazer genuíno em estar estudando alguma coisa.
Eu já admiti que meu vestibular para Artes Cênicas foi absolutamente incentivado pela vaidade. O que não desmerece as vantagens incontestáveis que adquiri ao seguir esta escolha. O mundo que vivi (vivo) e as pessoas que conheci, e as experiências que venho acumulando, decorrentes desta escolha, vem me fazendo ser mais atenta. Mais leve. Mais livre. Mais feliz. Só agradeço...! Mas eu devia desconfiar que História talvez seja a minha 'vocação', pois sempre foi a ÚNICA coisa que eu realmente gostei de estudar, em toda a minha vida escolar.
A graduação em Estudos de Gênero surgiu num momento muito particular da minha vida. Cursá-la, por aquele curto período, teve efeitos profundos, esclarecedores e, por que não assumir, terapêuticos.

Mas é agora, só agora, no meu segundo semestre como aluna de História, imersa nos estudos como nunca estive (mais por desespero de final de semestre do que por dedicação genuína), eu começo a vislumbrar a sensação (orgástica) de se ter uma pergunta!

Eu ia fazer um seminário sobre os hebreus. Não fiz porque no dia da apresentação eu não poderia ir pra aula.
Na semana seguinte um dos colegas desta equipe me disse que a apresentação foi horrível! Que ele 'travou', que ele não conseguia falar nada, que ver a história do povo hebreu, que enxergar os relatos presentes na Bíblia daquela maneira tão imparcial e analítica, tinha mexido tanto com as convicções dele, que a voz simplesmente não conseguia sair da garganta.
Acabo de entendê-lo.
Porque passei a madrugada estudando (atrasada...) os textos sobre o assunto.
Mas não travei não. Pelo contrário - senti foi pequenas borboletinhas revirando o meu estômago.

Bem.
Eu fui evangélica.
Não tinha como não ser...
Eu passei toda a minha infância indo aos domingos pra Igreja Batista de Amaralina; eu me acostumei a ouvir minha vó se referir ao 'Pastor Geraldo' como uma deferência digna de um 'representante de Deus'. Ver meu avô lendo a Bíblia ou com o 'joelho no chão' era uma imagem cotidiana pra mim. Na casa dos meus avós tinha Culto no Lar, e a participação nele não era uma coisa negociável...

Quando meu avô morreu, e meu avô foi, na prática, o meu pai, eu precisava de um substituto. E transformar Deus no meu pai foi uma coisa natural a fazer, na minha cabeça de criança de onze anos, já que meu avô sempre parecera tão profundamente íntimo dele.
Mas só com uns 18 anos eu resolvi oficializar a paternidade e "assumi" pra família o meu status de evangélica, inclusive passando a frequentar uma igreja e me batizando.
Eu sei. É engraçado. E minha mãe (e minhas amigas!) não têm boas lembranças d'eu sentada ao lado do som, ouvindo os gritos da Bispa Sônia. Mas foi um momento importante da minha vida, que eu faria de novo, igualzinho. Inclusive, o meu batismo foi lindo! Eu frequentava uma igreja modernosa, com cultos embalados por bandas de rock (gospel), e me batizei numa vigília, na Praia de Pituaçu. Foi uma sensação maravilhosa, e nenhuma percepção posterior do que são as igrejas evangélicas, do que é a doutrina judaico-cristã e do quão Paulo de Tarso é um dos personagens mais estriônicos da história da humanidade, vão tirar a beleza do que eu senti naquele dia.

Então agora, na minha madrugada de estudos, mergulhada em textos que refazem a imagem que eu tinha da Bíblia e das coisas que estão escritas nela, mesmo que eu já não a visse como Verdade há muito tempo (porque refizeram, também, a imagem da Bíblia como livro histórico; porque, veja só, nem sob o ponto de vista histórico o Velho Testamento é uma fonte confiável! rs), eu me vi pululando em porquês que só podem ser respondidos através da Academia.

Não dá para apresentar estas perguntas aqui, até porque eu ainda não tenho conhecimento suficiente para sistematizá-las. É mais uma sensação. Como se todos os meus poros ficassem alerta diante de uma coisa. Que me levam a questões práticas, como a formação do Estado de Israel e o conflito entre judeus e palestinos.
É tão longe de mim!
Eu sou latino americana, brasileira, bisneta de índio... que tenho eu a ver com o sentido de unidade do povo judeu?!?!?!
Tenho nada a ver. E tenho tudo a ver.
Porque os descendentes do povo hebreu, ainda que não reconheçam Jesus como o Messias, nos legaram ele.
E isso, por todas as mal (péssimas) traçadas linhas da História, formaram a minha identidade também. Eu, que sou uma mulher nascida numa ex colônia de um país católico, criada numa família de protestantes.

Eu vou sim, um dia, fazer a tal da pós graduação...
Não porque é o caminho "natural".
Mas porque estudar pode ser uma forma de se decifrar.

E porque, misturando as mitologias, o meu único objetivo na vida é decifrar a esfinge, para não ser devorada.

Ônibus. Cheio. Eu. Em pé. 
O percurso ia ser longo.
Resolvo ler um livro. Em pé mesmo.
Um homem. Sentado. Do meu lado. Me vê tentando equilibrar meu livro, meu corpo e minha bolsa enquanto o ônibus solavanca.
Gentilmente ele se oferece para segurar a bolsa.
E diz:
- Leia o seu livro aí em paz, pra você ir relaxando. Eu tô relaxando aqui também, com a minha skol...
Sorrio. Agradecida.
Ele continua:
- Eu fui comprar minha cerveja, pedi canudo, a vendedora falou "um negão desse tamanho, vai tomar cerveja de canudinho?!" (era um homão grandão, cuja grossura do braço correspondia à da minha coxa)
- Oxee! - ele continuou. É claro! Eu respondi pra ela que tomar cerveja de canudinho não diminui nem um centímetro a minha masculinidade!
Abri o meu sorriso mais largo como resposta.
Os brutos também pensam.
A casa da minha mãe é longe. É silenciosa. Faz um leve friosinho quando a noite cai. A casa da minha mãe tem gato e tem cachorro. E, ok, dá um certo ódio no coração se é você que tem que limpar, mas quando você se vê sentada no chão com um gato escalando as suas costas enquanto um cachorro enfia o focinho nas suas mãos, bom... você releva a bagunça que eles fazem! A casa da minha mãe parece que fica no centro do furacão, porque quando estou aqui dentro, parece que não está acontecendo absolutamente nada lá fora. A casa da minha mãe é como colo de mãe. Mesmo que sua mãe seja completamente diferente de você (vai... nem é tanto assim!). Mesmo que você seja desaforada. Mesmo que ela viva em outra lógica social, em outro espaço temporal, em outra dimensão astral, bem longe do planeta Terra...! Mesmo que você morda ela de vez em quando (ou de vez em sempre). A casa da minha mãe - que é longe, silenciosa e meio fria, tem a incrível capacidade de manter longe os meus demônios. Os demônios respeitam as mães. Eles não ousam entrar aqui.
A casa da minha mãe, mais que qualquer lugar do mundo, sabe muito bem quem eu sou. Sabe mais do que eu. Porque eu... bem... eu sou míope.
Mas na casa da minha mãe eu nem preciso de olhos.
Nem de cérebro. Nem de epiderme. Nem de ouvidos.
Eu chego, entro, fico e, quando menos espero, me pacifico.
Eu tenho uma mágoa com Iansã (se é que tem alguma lógica pessoas encarnadas sentirem mágoa de orixás... eu enfrento o medo de ser uma heresia, e me dou esse direito). [[[[esse texto não é indicado para agnósticxs]]]]
Iansã é a dona do meu ori.
Eu fico emocionada quando penso nisso.
É uma honra.

Eu, que recorro aos oráculos todas as vezes que estou numa confusão ou com muita dúvida, fui a um jogo de búzios porque precisava entender umas coisas que eu estava vivendo. Coisas que eu poderia decidir sozinha, mas como sou feliz sendo mística, resolvi ouvir o que os orixás tinham a me dizer.
E os orixás me disseram pra eu ficar; de uma situação que eu queria sair.
Que eu sentia que precisava fugir.

Eu fiquei.
Eu, que já tinha perdido sete quilos, que sentia uma sonolência infinita, que não conseguia me concentrar em absolutamente nada, fiquei.
Não muito tempo depois eu acabei saindo.
Eu precisava.
Fugir.

Iansã me falou do amor e que o problema estava dentro da minha cabeça.
Mas então eu precisava de terapia, não de romance.
Eu acho...

Eu sou lenta para me recuperar das coisas.
Porque eu sinto um certo apreço por cavernas...
Então ao invés de correr pro lado de fora, eu preciso lamber as feridas.
É a minha saliva que as sara.
E eu já vivi o tempinho suficiente para entender que elas saram completamente. Não é sem orgulho que eu afirmo que não tenho absolutamente nenhuma questão mal superada.
O passado passa. Mesmo que demore um bocadinho...

Se não fosse a minha mania de entender as coisas, talvez não houvesse mágoa nenhuma (se é que não é um contra-censo juntar no mesmo raciocínio 'entender' com 'oráculo'...).
Mas eu não consigo parar de me perguntar por que ela me disse pra ficar numa situação que me desorganizava tanto. Na verdade, agora, é isso o que mais machuca. Como se eu estivesse perguntando se ela não estava vendo o tamanho da minha dor naquele momento. Ou se ela não me conhecesse o suficiente para entender que nenhum amor direcionado a mim seria mais importante do que as doenças da minha emoção. (Iansã acredita no mito de que 'o amor cura tudo'???). Talvez eu devesse ter uma conversa filosófica com ela a respeito deste assunto...

Iansã, às vezes - muitas vezes, a maioria das vezes - o que chamam de amor, é só um jogo de poder e roubo de energia...

Eu dou um desconto prxs céticos, que apenas dão um riso de canto de boca diante de uma questão como esta.
Mas eu não sou uma cética. Eu acredito em muitas coisas. E uma delas é que existe um ser chamado Iansã que tem alguma relação próxima comigo. Que me ama e que me guarda.

E a sensação que este ser "falhou", me é um pouco insuportável...

Minha Mãe, isto é uma carta, e é uma oração. Para você.
Para escancarar meu coração e fazermos as pazes.
Com amor,
Axé!
Lisa.
Qual é o antônimo de consenso?
(discórdia divergência dissenso colisão contrariedade oposição dissentimento heterodoxia dissensão dissidência desarmonia discordância)
Que quero eu neste mundo de dissenso, pois então?
1 - Parar de brigar com ele.
2 - Voltar a sentir curiosidade.
3 - Banir as respostas definitivas.
4 - Voltar a sentir prazer nas multidões.
5 - Voltar a gostar de conhecer pessoas novas.
6 - Voltar a ser um tanto boba, porque a gravidade puxa mesmo para baixo, e um dos maiores desejos humanos sempre foi o de ter a capacidade de voar. (ok, isso ficou muito brega, mas vou deixar assim)
7 - Ser corajosa.
8 - Me saber foda, mesmo que não seja sempre.
9 - Escrever cada vez mais lindo. 
10- Dinheiro suficiente para os confortos.
11 - Saber-me merecedora do amor.
12 - Amar de volta.
13 - Amar sem defesa, porque ninguém morre disso no final das contas.
14 - Ter paciência para a falta de magia do dia a dia.
15 - Ser mais brisa e menos tempestade.
16 - Passar mais tempo do lado de fora da caverna.

Amém.
Não é apenas que eu goste de mudanças, que eu precise de mudanças, que eu me sinta viva através das mudanças.
E elas vêem... Elas, solidárias, amigas, compreensivas, sabedoras da minha necessidade, elas simplesmente vêem. E é um absurdo que eu nunca tenha prestado atenção suficiente para agradecê-las devidamente.
Acontece que eu, que nunca soube lidar com dias que seguem iguais, e que não tenho sabedoria para lidar com o tempo do Tempo, às vezes vou lá no saco da Vida, e o rasgo com as minhas unhas afiadas, adiantando uma mudança que não estava planejada.
Isso dói.
Eu preciso urgentemente aprender a ser mais brisa, e menos tempestade.

segunda-feira

Olha... eu não queria que você partisse...
Tá, eu sei, eu não fiz nada, nada mesmo, pra que você ficasse.
Ao invés disso eu lhe joguei um eu-tô-namorando pelos peitos!
É que eu tenho essa mania de perfeição contra-producente; moldada, creia você, nas milhares de baboseiras fantasiosas românticas que tive que engolir a vida inteira! É uma obsessão pela 'magia', que enfiam na cabeça das mulheres...
E lembra daquele encontro? Aquele, depois que você viajou, que passou, sei lá, uns dois meses fora. Foi tão insosso! Tão, tão, aqui pros meus moldes de anti heroína de comédia romântica... É que o senhor é meio taciturno, meio sombrio, não é moço...? E eu com a minha carência monstra, ainda curando ressaca de uma paixão mal vivida, e sendo toda bem cuidada pela menina dos zóio grande que dias antes velou o meu sono numa noite de pesadelos. Neste dia, moço, eu precipitada e ansiosa, me decidi pela menina. Achei excitante o desafio; achei aconchegante o peito macio dela; quis pagar pra ver! (paguei caaaaaro, seu moço!!! rs)
Aí me acostumei a ter você ali, silencioso e meio indiferente, mas, à sua maneira, sempre à postos todas as vezes que precisei resgatar minha autoestima. (é feio usar os outros de remedinho, né? mas você nunca pareceu se incomodar...).
Eu sou inábil, moço, muito inábil, absolutamente inábil, nesse troço de se abrir pro outro entrar.
Eu não enxergo convites, eu interpreto tudo como uma vassoura atrás da porta.
Aí todo mundo vai embora mesmo... Você não foi o primeiro não. Isso é bem ruim pra mim...
Mas eu não queria não ver você cantando pra outra menina...
Que coisa, não?!
Minha burrice amorosa não tem mesmo nenhum limite!
Vixe!

Vá, vá, vá embora.

Eu sempre tenho a expectativa que, de uma próxima vez, eu vou acertar.

terça-feira

GUERRILHA

Há de se fazer as pazes.
Consigo - por estar aqui.
Com o outro - por ser como é.
Com as lógicas das coisas - construídas incessantemente por todas as mãos.

Há de se fazer silêncio e se esgueirar da necessidade de porquês.
(por que perguntas, se nenhuma resposta será satisfatória?)

Mas qual é o sentido? (interrogações, nosso mais inevitável destino...)

Eu não sei qual é o sentido. Eu não tenho a menor condição de ao menos tentar entender.

Então feche os olhos e lembre das pequenas sensações deliciosas: o vinho, o início da embriaguez, o arrepio da pele que responde a um toque desejado, o gozo, o sono, o riso altruísta, o encontro inenarrável de almas quando se reconhecem, a exaustão transcendente de um corpo que dança, a música que acarinha dentro das células, olhar um bicho, escolher trazer um filho, submergir em águas, falar com a sua deusa. O que mais?

Para não sucumbir, é preciso prestar atenção às sensações. Às diminutas sensações. Às imperceptíveis sensações que passam rápido como piscadelas. Mas que nos avisam que nem só de socos e gritos é feita a vida neste mundo.

Por uma cada vez mais atenta sensualidade.

Para não sucumbir.
Para resistir.
Para vencer.

sexta-feira

Saber morrer é ter um algo pra se orgulhar.
Morrer é doloroso.
É lento.
Escuta: morrer é lento.
Mortes fast food são mortes de vitrine. São mortes apenas para angariar elogios.
Morrer é um processo gradativo; às vezes mais, às vezes menos sofrido.
Morrer é a arte de se escutar.
É a arte de não ter medo da dor.

Luto é uma forma de luta.

Mas o luto cessa.

A vida recomeça.

O círculo mais que perfeito.

terça-feira

sobre a arte de desintoxicar o organismo
sobre a arte de se despedir definitivamente
sobre a arte de limpar o resto das impressões
sobre a arte de lavar por dentro

de quem não é leve
de quem não é simples
de quem possui porões
.

quinta-feira

Ela se perdeu de deus.
E isto, senhoras e senhores, não é a melhor coisa que podia lhe acontecer.
Mas pensa que isto dito em tempos de fundamentalismo religioso misturado com política partidária pode não soar muito bem...
Mas é que, para ela, deus não é um homem.
Não é uma mulher.
Tampouco uma árvore.

Deus é estar presente.

Se a moça se perdeu de deus é porque ela se perdeu de si.

E se ela se perdeu de si, ela não é capaz de interagir com todo o resto.

Se perder de deus é perder o prazer.
Até o prazer do drama e do sofrimento.

Se perder de deus é deixar de sentir o gosto das coisas.

De todos os seus desejos mais urgentes, a única coisa realmente importante agora é que ela ganhe o seu paladar de volta.

Com 5 quilos abaixo do seu peso, ela está apenas aguardando o dia que vai voltar a ser gostosa.

segunda-feira

- Eu não sei ajudar...

A frase acima foi proferida pelo meu anti-social favorito.
Ele tem oito anos.
E como todo dia no recreio ele conversa comigo, eu fico me sentindo assim... tipo a sua melhor amiga!

Hoje eu não contei história. Hoje eu coloquei eles pra confeccionarem cartazes com as sobras de material da biblioteca, por conta da Semana do Meio Ambiente. Era em equipe, e sob pressão -  porque eu só tenho 30 minutos com cada turma.

Assim que expliquei a atividade e as equipes foram se formando, olhei pra ele. Por puro deleite sádico, de quem perguntaria "e agora, mocinho? tu vai fazer o quê?!"
E no rosto dele se formou um misto de desespero, desamparo, raiva e preguiça.

- Você pode fazer sozinho! - acudi - mais por compaixão do que por pedagogia.

Só que ele acabou se juntando às meninas patricinhas por quem eu já nutrira certo ódio (porque uma delas um dia me mediu de cima a baixo, como uma adulta desagradável, presunçosa e mal educada, por eu ter lhe chamado a atenção), mas que depois de uns sorrisos de um lado e uns beijos na cabeça de outro, havia melhorado bastante a relação.

Dez minutos depois uma delas me solicita, com aquele tom de criança fazendo fuxico:
- Lisa, Tiago 'tá chorando...

- Oxi, Tiago! O que foi?!

Ele queria colar um pedaço troncho de papel crepom azul, todo melecado de cola, no cartaz caprichoso das meninas patricinhas.
Elas não deixaram.
Eles saiu choramingando.
Eu intervi, avaliando que nem no meu cartaz ele colaria aquele negócio grudento:
- É um trabalho em equipe, Tiago. Todo mundo tem que concordar.

- Mas eu queria colar a nuuuvem!
(não, isso não é uma nuvem; isso é uma gosma; e eu vou jogar fora)
{{{pensei-mas-não-falei}}}

- Todo mundo decide junto, e todo mundo ajuda no que for decidido! - eu disse, por fim, me lembrando que aquilo era uma escola, e eu precisava tentar fazer juz à minha função de arte-educadora.

Foi quando ele lacrimejou a frase-fatídica "eunãoseiajudar...", que só não me levou a um ataque histérico de paixão profunda, porque eu tenho que tentar fazer juz à minha função de arte-educadora. 

Eu nunca sei o que responder em situações como essa. Porque a primeira coisa que me vêm à cabeça são soluções que eu daria pra mim mesma. Mas geralmente eu me lembro que à minha frente não está o espelho, mas sim crianças de 01 a 10 anos; e que já que a minha vida não é nenhum exemplo de sucesso, e que eu sou uma  adulta, e que minha mãe não vai pedir satisfação a ninguém se eu contar pra ela uma coisa que eu disse pra mim mesma, decido que talvez não seja muito auspicioso espalhar as minhas técnicas de sobrevivência por aí...

Mas hoje escapuliu, antes d'eu me censurar:

- Da próxima vez você faz sozinho! PRONTO!!!

Alívio geral da nação.
As meninas continuaram brigando pra decidir quem colocava o glitter dourado, Tiago foi futucar os livros, e eu pude ir em paz dar pressa às outras equipes.

Talvez Tiago perceba, um dia, que existem outros caminhos, além de 'sozinho'.
Mas por que tem que ser uma imposição?

quinta-feira

Eu vou lá, bato na porta do oráculo e peço sua opinião.
É uma forma de conseguir alento, e de sanar as dúvidas, e pedir orientação, e de ter uma decisão referendada. 
Acontece, que nos assuntos do amor, os orixás têm uma visão muito diferente da minha. Eles têm me pedido convivência, todas as vezes que eu vou lá dizer que estou prestes a sair correndo.
Desta vez me disseram "é hora de enxergar o outro". E eu, mais uma vez, não consegui.
Injusto demais, sinto eu, ter que medir palavras e viver em sobressalto, e ter que estar a provar um sentimento a todo momento.
Este texto é bobo, eu sei.
Talvez eu seja apenas uma pessoa muito egoísta e individualista.
Ou talvez eu não aceite de jeito nenhum que qualquer tipo de sacrifício seja necessário no exercício de partilhar a vida com alguém. 
Já repeti isso um sem número de vezes: dos preços a serem pagos, eu escolho pagar o de ficar sozinha. 
Estou chata, repetitiva; eu sei.
É preciso gastar os assuntos.
É preciso esvaziar a alma daquilo que está a lhe apertar as veias.
Eu não poderia seguir. Não poderia.
Sou mais heterossexual do que gostaria.
Sou mais doente emocionalmente do que imaginava.
E sinto um pânico paralisante de me perder de mim.

Não vou falar mais disto.
Vou mudar as cores do blog, vou reorganizar meu espaço individual e vou fazer terapia.

Viver é tudo isso.

terça-feira

Namoros firmam-se à medida que as partes desapegam-se de si mesmas e vão seguindo em direção ao outro, enquanto constroem essa terceira pessoa chamada 'nós', cheia de braços, pernas, salivas, medos, vontades e corações.
Nunca cheguei tão perto dessa coisa de namorar quanto fui com essa menina.
Mas ela ousou ser bonita demais e destampou a caixa feia das minhas piores dores.
Sou ré confessa.
Acostumada demais a ser hetero para lidar com destreza com os olhares dos moços que desejavam com tanta efusão à minha menina.
Era um ciúme voraz e invejoso que foi embotando a minha tão tênue alegria.
Assumi a minha incapacidade e a minha covardia.
E voltei para este lugar tão meu conhecido, de ode ao próprio umbigo, de louvores às minhas individuais e adoentadas melodias.
E ela, tão menina, tão crédula dos amores bonitos que cantam nos filmes, se agarrou ferozmente ao que sentia, ao que que almejava, ao que construía.
Me pegou pelo braço e quis me levar de mim.
Não pude, menina. Não posso.
Não sei medir atos e palavras em favor de um outro.
Egoísmos dos apavorados.
Dos que não abrem mão de si.
Diante das invejas, dos ciúmes, da inabilidade para o cuidado devotado, da impaciência, da falta de tato, diante da inexistência do jeito safo dos machos (eles, sim, treinados para lidar com meninas que são consideradas 'princesas'), desisti do desafio e me recolhi.
Eu tão acostumada a precisar dos falos que me validem.
Patético fim para o canto mais próximo que o amor chegou de mim.



segunda-feira

Eu não sei fazer, não tem jeito. Já tentei, não consigo. Não adianta insistir, eu não sirvo.
Claro que eu li as mesmas revistas e livros, assisti os mesmos filmes, aprendi a cantar alto as letras das mesmas músicas. Eu vivo neste mundo bem aqui, igualzinho a todo mundo.
(e ainda sou mulher...)
É óbvio que eu desejei ardentemente o maior desejo de todos.
Claro que sofri, que me lamentei, emagreci, chorei escorregando pela parede do banheiro.
Não pense que eu escapei dos Clichês de Amor, porque isso está longe da verdade.

(e ainda sou mulher...)
Eu conheci o cara num dia e imaginei o casamento no outro.
Eu combinava os sobrenomes para ver como seria o nome dos filhos, eu desejava a ligação do dia seguinte e entristecia se ela não vinha, eu sentia ciúme mortal de ex-namoradas, eu criava expectativa, eu fazia planos, meu orgulho definhava a cada rejeição.
Dos Clichês Femininos de Amor, eu cometi quase todos.

E cometi também muitos dos Clichês de Quem Não Acredita nos Clichês de Amor.
Vê-se bem que sou boa mesmo neste negócio de repetir padrões.

Mas não deu. Não sei. Não consigo.

Há Clichês dos Solitários?
Minha sina repeti-los.

Quero ser amada e ser livre.
Ao mesmo tempo.
Não é clichê.
É só minha alma.
Em desalinho?

terça-feira

Ela tinha uma brincadeira estranha, secreta e solitária - fingia ter perdido a visão. 
Andando pela casa com os olhos cuidadosamente cerrados, ela apalpava os móveis e as sensações. 
Era um treinamento para o desespero, pois mais intensamente que a maioria das pessoas, ela sorvia o mundo principalmente pelos olhos. Não achava um endereço se não decorasse o caminho pelas cores das casas, as fachadas dos prédios, a imagem de uma padaria à direita, uma rua torta à esquerda... E pra responder as provas da escola usava uma técnica infalível: fechava os olhos e visualizava a página do livro. Batata! Fora as memórias, que vinham em fotogramas, fora a capacidade de saber que o clips azul estava numa caixa amarela, no canto esquerdo da terceira gaveta que fica ao lado da cama.
Sim, a visão é o seu melhor sentido.
Quando leu "Ensaio sobre a cegueira" ficou semanas se sentindo impressionada, assustada, triste.
Então não, ela definitivamente não sabe lidar com a invisibilidade.
Para quem ver é algo subjetivamente essencial, não poder ser vista, machuca. Muito.
Lá no fundo.
Não poder ser vista é uma dor que retira a sua humanidade.
Ser colocada num lugar de invisibilidade sempre lhe deixou atordoada.
Precisar ser invisível gera nela uma angústia irremediável.

segunda-feira

pequenos relatos sobre mini-monstrengos

Um choro. Alto, agudo, claramente doído.
- Ai meu deus, o que foi?!
Encontro Duda com a cara molhada e vermelha, chorando, encostada na porta da biblioteca.
Duda deve gostar de lágrimas, pois um dia ela, que é feinha, esquisitinha, fora de sintonia, anda pra cima e pra baixo carregando uma boneca suja; ela, alvo fácil pra bullying, calou um auditório com mais de cem crianças e levou às lágrimas um bando professoras (seres já propensos à sentimentalidades), enquanto cantava Corujinha, de Vinícius de Moraes.
Então era essa a menina se debulhando em lágrimas na minha frente.

- O que foi, Duda?
- Mariana e Ana Clara não querem mais brincar comigo!
- E por que você não brinca com outras pessoas?
- Porque antes ela brincavam comigo, e agora elas não querem mais brincar comigo!

- Brincavam comigo quando, cara pálida? - eu pensei, mas não falei, lembrando que eu nunca tinha visto Duda com aquelas meninas. Concluí, então, ser uma amizade recente; porém bastante intensa, vide o tamanho daquele sofrimento! E enquanto os soluços de Duda iam ficando cada vez mais altos, eu questionava se havia uma maneira didática e/ou psicológica de dizer "pra que porra você quer brincar com aquelas meninas que aos oito anos de idade já se sentem superiores a um monte de gente?!"
E Duda chorava, chorava, chorava.

Eu prendi o riso, respirei, sentei no chão ao lado dela, fiz cafuné.
- Duda, se elas não querem mais brincar com você, faça outros amigos.

Duda berrava.

Aí eu avistei Arthur, meu anti-social preferido, comendo sozinho o lanche dele, com a cara mais em paz deste mundo inteiro.
A única vez que eu vi Arthur interagir foi quando uma menina passou a levar jogos de tabuleiro pra escola. Arthur a seguia maravilhado, falava com as outras crianças com os olhinhos saltitando de felicidade enquanto jogavam. Lá um dia vejo Arthur sozinho novamente. Perguntei por Sofia e ele respondeu "hã?".
"Nada não, Arthur", eu disse rindo. "É só uma pessoa."

Então enquanto Duda perdia uns três quilos de tanto chorar pela rejeição, eu fiquei com vontade de pedir pra Arthur explicar como ele parecia ser tão harmonizado com a solidão.

- Por que antes elas brincaram comigo e agora elas não querem mais?!

Resposta correta:
- Porque você é esquisitinha, Duda! Porque você é avoada. Porque você não fala coisa com coisa. Porque nós, seres humanos, precisamos nos sentir melhores, para nos sentirmos bem.
Resposta que eu daria se eu não tivesse medo de perder o meu emprego:
- Manda elas se lascarem!
Resposta dada:
- ...

Aí Mariana e Ana Clara apareceram.
- Levanta, Duda! Se você quer brincar, então vem!
Saíram bufando com Duda correndo ainda soluçando atrás delas.

Neste momento Arthur levanta pra jogar as embalagens no lixo e me vê. Sorri. Dá tchauzinho.

Só eu que acho que Arthur é bem feliz?

Depois de quatro dias dormindo cinco da manhã e acordando duas da tarde, era esperar muito do meu corpo notívago achar que só porque o feriado acabou e segunda é o dia mais cheio da minha semana, eu iria conseguir dormir no horário de gente normal. E é nessa hora que a velhice começa a mostrar-se: não sou mais imune a noites insones. A segunda vai ser dose! Yansã, valei-me!

Depois de umas pequenas férias da vida virtual senti saudade e voltei.
Mas foi bom dar uma parada.
Eu estava saturada.
De:

1 - As pessoas formularem opiniões ao meu respeito de acordo com as minhas postagens no facebook (mais opiniões bacanas do que ruins, até onde eu saiba, mas não necessariamente corretas, já que limitadas). O problema aqui é que os espectadores virtuais da sua vida criam uma persona lá na cabeça deles a respeito de quem você é. Principalmente se você é uma louca compulsiva, com aspirações literárias, bandeiras políticas e opiniões irônicas a respeito dos fatos, como eu era. Eu postava durante todo o tempo. Pessoas com quem eu nunca troquei muitas palavras falavam comigo como se me conhecessem. Como fazê-las perceber que aqueles aspectos que eu escolhia mostrar na rede social eram apenas um pedaço de mim? Um pedaço planejado, calculado, rascunhado, revisado? Como me proteger da imagem que era formada na cabeça de gente que nunca passou nem uma hora inteira comigo? Como me libertar da tarefa de ser A Feminista Sempre a Postos? Como degustar o meu total (fragmentado, contraditório, vacilante, ilógico) se a vida virtual edita?

2 - As mazelas do mundo.
Sim, este mundo é foda.
E eu sou mulher, pobre, bissexual, latina, nordestina, fora do padrão de beleza.
É um tanto mais foda pra mim. Principalmente porque eu não me agarro aos poucos privilégios de que usufruo.
Mas cansei de sofrer por conta do mundo. E as redes sociais são um caldeirão delas. Estavam desorganizando o meu já instável equilíbrio emocional.

3 - Minhas carências.
Redes sociais podem fazer você se sentir amado. E eu fiquei assustada quando me dei conta de que estava sentindo necessidade disso.
Tive uma crise de choro e resolvi que não era mais possível adiar a terapia.
(me afastei da rede social, mas a terapia continuo adiando...)


Por fim, eu precisava viver meu namoro sem fantasmas.
E é impressionante como nas redes sociais as interferências são muito mais assustadoras.



Espero que tudo tenha amadurecido.
Que tudo tenha criado um corpo mais forte e estrutura capaz de manter a paz interna diante das circunstâncias.
Quando digo tudo, estou dizendo tudo: jazz das identidades, capacidade de viver - ainda que neste mundo, desestruturante sensação de afinal-valho-quase-nada-nesta-merda-de-vida, e namoro.

Que tudo seja mais doce e mais bonito.


Acreditar que as coisas serão mais felizes é a utopia básica do ser humano.


Elas são ciumentas. Possessivas. Birrentas. Intriguentas que só elas.
As palavras.
Pelo menos no meu caso este é o caso.
Me querem sem desvio.
As minhas palavras só amam quem não me rouba a atenção.
Elas gostam de ser as mediadoras, as interlocutoras, as divulgadoras do meu desejo.
As minhas palavras abandonam quem as inquire.
As minhas palavras me abandonam se eu assim permito.
Não aceitam pudor, timidez, receio.
Minhas palavras não aceitam a censura.
Me desafiam:
- Assuma a contenda, pois então! Ou não és mulher para isto?

Não sou.


sábado


Ela sente medo do mar.

Quando bebê respondia com choros compulsivos a qualquer tentativa de levá-la para dentro d'água.
Nunca houve um diálogo agradável, passou a vida inteira voltando para a areia desenxabida e derrotada.

Mas então que um dia, por causa dos volteios da vida, se viu olhando de um jeito inédito pra si mesma.
E assustou-se com a quantidade de água de que também era feita!

No 2 de fevereiro daquele ano, flores na mão, equilibrada nas pedras, sentiu mais uma vez com toda a força: o pavor do mar.
Mas ficou. Porque a vontade de falar com ela era maior que a ânsia de fugir dali.
E foi batendo uma vontade de chorar pequeninho!...

Que os medos vão embora...
O que mais pedir?

Odoyá!

quarta-feira

Da série: Livramentos
Hoje, na volta pra casa, pouco antes das 19h, na rua principal do Garcia, uma estaca de ferro de um prédio em construção caiu em cima de mim.
Passou de raspão pelo meu braço esquerdo.
Sujou a manga da blusa, ralou o meu braço e a minha mão.
Eu gritei na hora. Mais pelo susto.
Todo mundo na rua gritou também.
Inclusive os trabalhadores da construção, que desdenharam do que tinha acontecido, falando que não precisava "tanto".
Fiquei com raiva do descaso, entrei num táxi, e fui numa delegacia registrar um BO.
Depois ainda fiquei quase uma hora no IML pra fazer o Exame de Corpo de Delito.
Não foi nada. Só dois raladinhos. Mas, por 20 centímetros, não caiu na minha cabeça.
Minha mãe havia dormido aqui e, na hora que eu saí de manhã pra ir trabalhar ela me disse "Deus acompanhe!", mas eu nem ouvi.
Ela passou o dia aqui. E agora, quando contei, ela me disse que quando saí pela manhã, sentiu um aperto no peito e passou longos minutos orando por mim.
E só agora, ouvindo o relato dela, que a minha ficha caiu.
Vou tomar banho, comer e dormir. Amanhã seguirei o meu dia normalmente.
Agradeço aos meus guias, meus anjos, meus deuses, meus orixás.
Agradeço à minha mãe pela intuição e oração.
Agradeço às pequenas belezas sempre presentes na minha vida.
Só agradeço.
Com toda a imensidão do meu peito.
Tudo continua intacto.
Então apenas, e agora mais consciente, agradeço.
um pouco de água nesse meu peito de ventanias...
um sopro de susto
um caldeirão de desafios
Yansã, me ensina a vencer também as guerras de dentro.
axé!



Se o mundo não acabar, eu vou olhar para 2013 pedindo que os meus dias sigam cadenciados por uma rotina, e que as minhas conquistas sejam básicas, cotidianas.
Demandas simples e possíveis.
Prazeres pequenos: comida boa, livro interessante e cafuné.
Nada de urgências! Chega de urgências! Tomei horror a elas!

Nada de perguntas sem respostas.
Nada de perguntas, na verdade...
Quero o calor morno de quem aceita.
Que as minhas análises me sirvam, porque sinto prazer com elas. Mas que isso baste.

Os amigos.
O amor.

Mas sem discussão de ideias.
Estou cansada! (o que restará?)

Assistir novela, pintar a unhas, cuidar do gato, trabalhar.

Deita aqui do meu lado, 2013. Vem tirar essa sesta comigo...!
Quando as explicações estão postas, deve ser mais fácil.
Bom é assim, ruim é assado, isso é beleza, aquilo não é, homem é de marte, mulher é de vênus, viado-só-pode-se-for-o-filho-dos-outros, e Deus, o Diabo etc, etc...
A lógica é dualista.
Ou era.
Adeus, Velha Terra...!
Eu acredito é na lógica d'O Louco do tarot.

Chega de respostas prontas.
Porque as verdades são múltiplas.
São todas.
Talvez seja um desafio viver sem estar sob uma cartilha.
Mas eu prefiro viver assim.
E não vou pedir "oh, mundo injusto, opressor, cheio de regras, me deixe viver assim... oh, por favor!"

Não vou pedir.

Eu não caibo.
Simples assim.

Acredito é nos Grandes Ciclos.

** recomeçou **


Vem comigo, Nova Terra!

VAMOS
NOS
DIVERTIR!