sábado

Carta a ele.
Sou daquelas cujo derramar-se nunca é discreto. Pois se sinto, choro. E se choro, me incha os olhos.
Nunca pude sentir despercebida, pois mesmo chorando no escuro solitário do canto do meu quarto, no outro dia a cara toda me exibia.
Por um tempo, burra que fui, evitei sentir em profundidade. Pois acreditei numa das crendices doentes deste mundo, que dita que quem se afeta assumidamente, merece o cadafalso social.
Pois agora, quanto mais células minhas se entregam assumidamente ao torpor, mais dona de mim eu me sinto.
Moço, vou lhe contar uma coisa poderosa: uma das vantagens deste mundo é a possibilidade de se perder.
Moço, vou lhe contar outra coisa: eu jamais experimentaria a minha capacidade de não sentir medo de morrer por causa do julgamento do outro, se não viesse você me oferecendo seu chão sem ovos.
Porque você também sabe que eu não vou nem tentar lhe roubar de si.
Que agora, que o torvelinho chegou sem espaço para vislumbre de convivências, eu não tenho porquê sentir vontade de me proteger.
Eu sinto e choro e acordo amanhã com a cara amassada, de tão inteiro que eu senti.
Moço, eu não preciso que você me salve. Nem do meu pavor da solidão.
Com a cara inchada vou escrever poemas e recitar baladas. E se alguém me perguntar pra que, vou dizer que não é nada. Vou dizer que viver é tudo isso.
Um brinde ao movimento que só acontece através das paixões (de gente e de coisa).
Da filha do Vento.
Eparrey!

Um comentário:

Aline Soares disse...

Moça vou te contar uma coisa: - Virei sua fã!